11 minutos

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014


16/02 - 23:42

Onde…
A boca estava seca. A cabeça zonza. Onde… Onde? As palavras surgiam e desapareciam em sua mente sem nunca chegar à boca. Havia luzes. Luzes no alto, correndo rápidas, apressadas, entrando e saindo de seu campo de visão. Havia também manchas escuras, vultos, que passeavam aqui e ali, alguns se aproximavam tocavam-no. Pareciam murmurar, mas ele nada compreendia. Havia dor. Sim. Muita dor. Mas mesmo isso parecia algo distante. Era como levar uma facada em um sonho e imediatamente acordar com a sensação de que ainda havia uma faca cravada em seu corpo. Era aquela a sensação. Só que ela não passava. Era como estar preso naquele exato instante em que a dor imaginária começa a se desfazer, mas ela não se desfazia. Não. Era o processo inverso. Estava aumentando. A dor estava aumentando. Os vultos estavam tomando forma, ganhando traços, mãos, dedos, boca, olhos, máscaras. Sim, máscaras. As vozes tornavam-se compreensíveis. Ele está sangrando, rápido. As luzes, de repente, tornaram-se insuportavelmente brilhantes. Seu corpo despertou do sonho apenas para perceber que a realidade era ainda pior. Os segundos de consciência foram poucos, mas foram piores do que qualquer coisa que ele pudesse imaginar. Estava deitado em uma maca. Uma máscara de oxigênio estava posta em seu rosto, mesmo assim respirar era difícil. Cada inspiração era uma rasgo de dor em seu peito. Levantou a cabeça por um instante, causando-lhe uma explosão tão grande que o fez gritar. Ou teria feito gritar se o coração não tivesse parado.

Carregue em 200. Afasta.
O resto foi escuridão.

16/02 - 22:18

Ninguém disse uma única palavra desde que entraram no carro.
A mãe mal respirava. O pai era praticamente uma pedra sólida que não se movia. Sara, a irmã mais nova, sentava-se no banco do carona porque nenhum dos pais tinha coragem de estar perto do filho, pensava ele. Não, isso não tinha a ver com coragem. Talvez repulsa ou algo do gênero.
O pé volta e meia afundava contra o acelerador mais do que devia. Tentava se manter aos 80km/h, mas antes que percebesse já passava dos 100. Sua mãe geralmente o estaria repreendendo, mas não naquela noite. Naquela noite poucas coisas importariam a seus pais. Forçava-se a reduzir, calculando que ainda levariam pelo menos 20 minutos até o aeroporto. Parte dele desejava prolongar aquilo o máximo possível, achando que ainda havia esperança, que ainda podiam conversar e se entender. A outra, só queria que embarcassem logo e fossem para o mais longe o possível.
Estava magoado. Estava com raiva. No entanto, acima de tudo, estava triste. Triste como jamais estivera. Triste de uma forma que não esperava estar. Era um homem crescido, independente. Estava feliz até então. Então por quê? Por que decidira fazer aquilo sabendo das consequências? Era assim tão idiota? Por quê? No fundo, ele sabia não havia uma resposta bem formulada para esse pergunta. Era simples. Eram seus pais. Tinham direito de saber e ele tinha direito de falar. E queria falar. Simplesmente queria.
Então, sua irmã mais nova, até aquele momento calada a olhar pela janela, inocentemente fez a pergunta que acabaria colocando todos no hospital.

16/02 - 21:33

- Chame um taxi - Disse o pai de Daniel, a voz áspera como nunca antes.
- Pai, vocês não precisam ir. Vamos conversar, por favor! - pediu o filho.
- Chame um taxi. Agora. - Repetiu, ainda sem olhar para o filho. Tinha as mãos cerradas e os braços cruzados para impedir que vissem o quanto tremia.
Francisco recolhia os cacos de vidro do chão. O tapete ficaria manchado de vinho, mas não havia nada que pudesse fazer a respeito. Naquele momento, desejava apenas virar fumaça, sair pela janela e ir para qualquer outro lugar. Aquele era um assunto familiar que não lhe dizia respeito. Só que dizia, não dizia? Claro que sim.
- Querido... - começou a mãe, dirigindo-se ao marido.
- Não, Martha. Não! - Gritou o marido.
Fez-se silêncio por um tempo. Ninguém pareceu respirar. Era visível o esforço que o próprio Daniel fazia para não gritar. Francisco o conhecia. Sabia bem quando o outro estava engolindo as palavras. Ele era simplesmente assim. Não conseguia reagir de prontidão diante de certas coisas. Era alguém que absorvia a situação, deixava-a ali, quietinha, sendo processada por alguns instantes, algumas horas, talvez alguns dias, para só depois conseguir encontrar em si a maneira certa de lidar com aquilo. E não havia nada que Francisco pudesse fazer a não ser continuar juntando os cacos de vidro do chão.
- Não precisa de taxi. Eu levo vocês até o aeroporto - Disse Daniel, já pegando as chaves do carro e dirigindo-se para a porta, sem dar à família qualquer chance de contestá-lo. Antes de sair deu uma breve olhada para Francisco, que apenas acenou com a cabeça. Me desculpe, dizia o olhar. Tudo bem, não é sua culpa, dizia o aceno.
E eles foram, deixando Francisco sozinho com um punhado de cacos de vidro e uma mancha de vinho no tapete.

16/02 - 22:40

Sara tinha apenas 12 anos e não estava preparada pra nada do que aconteceu. Não estava preparada para aquele jantar, para o modo como seu pai reagiu, para a discussão dentro do carro, para o acidente, para ser a única consciente quando as ambulâncias chegaram ao local.
Quando a ajuda chegou, ela estava em pé ao lado do irmão. Tremia dos pés à cabeça em puro choque, mas, fora isso, saira quase ilesa. O pai tivera uma concussão e estava desmaiado. A mãe estava pior, quebrara pelo menos duas costelas e gemia ainda presa ao carro. Contudo, os três estavam de cinto. Daniel, não. Ele fora atirado pela janela e agora encontrava-se estirado no meio da estrada. O rosto ensanguentado estava quase irreconhecível, pedaços de vidro estavam cravados em sua cabeça e ombros, o corpo parecia frágil e quebradiço. E Sara só conseguia olhar. Nada se passava em sua cabeça. Nada. Ela apenas olhava para o irmão com olhos arregalados e não pensava em nada.
Ela nem ao menos ouviu o som das sirenes. Também não ouviu quando os paramédicos correram até ela, fazendo perguntas e mais perguntas. Não ouviu nada. Apenas tremeu.

16/02 - 19:19

- Ok. Já vou descer abrir. - Disse Daniel no interfone e depois desligou. Por um momento, apenas se deixou estar ali, encostado contra a parede, respirando fundo, tentando imaginar o quanto as coisas mudariam dali pra frente. Era algo que não conseguia medir, apenas especular, mas especulava alto. Eram seus pais, tinham de entender e de aceitá-lo, não?
Francisco veio da cozinha, usava um avental preto, os cabelos estavam completamente bagunçados e as bochechas rosadas com o calor do fogão. No entanto, o rosto era pura paciência e tranquilidade, suficientes para acalmar o nervos de Daniel. Sempre fora assim, Daniel se estressava com praticamente tudo e o outro sempre estava ao seu lado para acalmá-lo. Funcionavam juntos. Eram um time. 
- Está na hora - Disse Francisco.
- Sim, está. - Concordou.
- Você tá pronto?
- Acho que sim.
- Não precisa fazer isso caso ache que não é a hora de fazer. - Disse, segurando as mãos do outro.
Daniel hesitou por apenas um segundo.
- Besteira. É a hora. - Depositou um beijo nos lábios do outro e saiu do apartamento, o coração palpitando, mas confiante de si.

17/02 - 03:44

Jorge levara cinco pontos na cabeça, tomara medicação para dor, e contra as recomendações médicas já estava de pé, exigindo que alguém lhe trouxesse informações sobre a esposa e o filho. Ninguém parecia saber de nada o que só aumentava sua raiva e seu desespero.
  E foi com raiva e com desespero que ele reagiu ao ver Francisco, o suposto namorado do filho, atravessar a porta e se aproximar.
- O que você faz aqui?
- Como ele está? - Perguntou Francisco, tentando ignorar qualquer ameaça que o homem pudesse estar tentando passar.
- Vá embora, rapaz.
- Seu Jorge, como o Daniel está?
- Não me provoque, garoto. Você não tem o direito de...
- Seu Jorge. Seu filho tem 24 anos, eu tenho 26. Nós não somos crianças. Nós moramos juntos há quase 4 anos. Nós dividimos um apartamento e uma cama, dividimos contas, dividimos sonhos, dividimos uma vida. Eu não sou um qualquer pra ele e ele não é um qualquer pra mim. Você é o pai e eu entendo, mas o Daniel é parte da minha vida agora e eu tenho tanto direito quanto o senhor.
Jorge ficou atônito, mas era orgulhoso demais para aceitar levar sermão de um rapazote. Estava pronto para revidar quando viu a médica que estava tratando o filho atravessar uma porta próxima a eles. Aquela não era a hora pra discussões. Céus, nenhuma hora deveria ter sido hora para discussão. Só queria que seu filho estivesse bem e não se importaria se fosse com um homem. Não, não se importaria mais. Aceitaria tudo que fosse, desde que seu filho estivesse bem.

16/02 - 21:21

- Me alcança o azeite, Francisco - pediu a mãe de Daniel, ao que ele prontamente atendeu - Obrigada, querido. O jantar está uma delícia. Sua namorada é uma moça de sorte.
  - Eu não tenho namorada, Martha - Respondeu ele ao mesmo tempo constrangido e divertido. Afastou o olhar para Daniel durante todo o jantar, queria que ele levasse tudo em seu próprio tempo e achava que um olhar na hora errada poderia pressioná-lo. Porém, naquele momento não pôde evitar de olhá-lo e rir da situação, mas o riso logo morreu quando percebeu o quanto o outro parecia nervoso, pálido e prester a vomitar. Queria confortá-lo, segurar sua mão e dizer que tudo ficaria bem.
  - Ah, mas um moço bonito como você não fica muito tempo sozinho. - Continuou a mãe, que até então pensava que Francisco era um mero colega de apartamento de seu filho.
  - Deixe o garoto em paz, Martha. Ele ainda é jovem, não precisa namorar. - Ponderou o pai de Daniel.
- Só estou fazendo um elogio. Além do mais…
- Pai, mãe… - Interrompeu Daniel, elevando a voz para chamar a atenção dos dois. E antes que pudesse mudar de ideia, antes que se formasse um silêncio constrangedor que antecede uma notícia ruim, cuspiu as palavras para fora. - Francisco é meu namorado.

16/02 - 22:20

- Você vai casar com o Francisco? - perguntou Sara, olhando para o irmão que dirigia. Daniel queria sorrir diante da inocência da pergunta, queria abraçá-la, queria que tudo tivesse sido diferente, que ainda estivessem em casa, todos juntos. Queria Francisco. Queria tanto estar com ele naquele momento. Mas antes que pudesse sequer pensar em respondê-la, o pai já iniciara outra gritaria.
  - Casar? Casar com outro homem? Não faça uma pergunta estupida dessas. Não existe casamento entre homens! Casamento é entre homem e mulher!
  - Jorge, não há necessidade disso agora. - A esposa tentou, em vão, acalmá-lo.
- Você vai tolerar isso? Você vai tolerar um filho bicha? Você tá feliz com isso? Porque eu não tô. Eu não...
  - Já chega, pai! - Gritou Daniel. - Você não tem o direito de falar comigo assim. Eu sou um homem crescido e tomo minhas próprias decisões! Essa é a minha vida, não a sua.
  - Eu tenho direito de me meter, sim. Você é meu filho e eu não vou deixar que você estrague a sua vida dessa forma.
  - Eu não tô estragando nada. Eu tô feliz... Eu estava feliz, até hoje. Você tá estragando tudo, pai. Você tá estragando minha felicidade! Você é meu pai, porra! Você deveria me aceitar e me respeitar. E Eu vou me casar com o Francisco, sim. Se você comparecer, obrigado. Se não, passar bem! - Então ele parou de gritar e com a voz serena, olhou brevemente para o pai e concluiu: - Eu amo ele e a sua opinião não vai mudar isso. Eu amo ele, pai.
E foi naquele momento, quando ele virou para trás por apenas um instante para enfrentar o pai, que surgiu o caminhão. Quando seus olhos voltaram para a estrada, o que ele viu foram dois grandes olhos amarelos vindo em sua direção, como uma imensa criatura prestes a devorá-los. A mãe gritou, mas já não fazia diferença. O monstro já estava em cima deles.

17/02 - 02:58

- Atende. Atende, Daniel. - Disse Francisco para as paredes enquanto ouvia os tons de chamada e nenhuma resposta do outro lado.
Já fazia quase cinco horas desde que Daniel saira com a família e nada. Milhões de coisas passavam pela cabeça de Francisco. Poucas eram boas. Tentava evitar as realmente ruins pensando que talvez eles tivessem se acertado e estivessem conversando, o que parecia bastante improvável, ou que Daniel só precisava de um ar, ou de uma bebida. Sim, uma bebida parecia algo que se precisasse depois de um jantar daqueles.
Discou de novo. Nada de novo.
No fundo, ele sabia que algo estava errado. Não era uma suposição. Ele apenas sabia. Algo estava errado e ele estava ali, sozinho e impotente. Já eram quase três da madrugada e ele já ligara mais de 40 vezes em vão. Estava na hora de medidas drásticas.
  Vasculhou o bloco de notas que ficava ao lado do telefone residencial até achar o número da mãe da Daniel. Não hesitou. Não importava. Precisava ligar.
Mas quem atendeu não foi Martha e sim Sara. Antes mesmo de desligar o telefone, Francisco já estava na rua parando o primeiro taxi que avistou e mandando que voasse em direção ao hospital.

17/02 - 03:45

Dizem que certas coisas ficam mais fáceis com o tempo.
Ester era médica naquele hospital há mais de 13 anos e isso nunca ficava mais fácil, não importava quantas vezes fizesse.
Caminhou pelos tão familiares corredores, atravessou as já desgastadas portas, cumprimentou alguns colegas, mas sua mente estava longe, longe dali. Estava na mesa de operações. No sangue jorrando, nos orgãos falhando. Na vida se esvaindo, vazando, escorrendo, tão frágil, tão insignificante.
  Atravessou a última porta que a separava da família do garoto para informá-los de sua morte.

23/01 - 20:19

  Depois de jantar os dois se atiraram no sofá. Francisco pegou um livro na estante e avançou na leitura por alguns minutos antes de perceber o olhar vidrado de Daniel.  O outro estava estranho e pensativo já tinha alguns dias, mas Francisco  apenas fez o que sempre fazia: esperou. Quando a hora chegasse, ele falaria sobre o assunto, fosse o que fosse.
Depois de alguns instantes, Daniel pareceu voltar a realidade e ele voltou ao livro, fingindo que não percebera nada de errado. Então o outro se aproximou dele, pegou sua mão livre e puxou-a aos lábios, depositando ali um terno beijo. Os dois se entreolharam sorrindo e Francisco entendeu que o outro estava pronto para falar.
- Eu decidi chamar meus pais. Pra um jantar, talvez - Então ele sorriu travesso, como criança prestes a revelar um segredo - E, você sabe, contar pra eles.
- Contar o que pra eles?
- Bem, que eu durmo com meu colega de apartamento. - E os dois riram juntos.
- Eu acho que se você tem certeza disso, não vejo porquê não.
- Certo. E você cozinha. - E antes que Francisco pudesse levantar qualquer objeção, ele jogou-se por cima dele rindo e fazendo-lhe cócegas. - Você não tem escolha
- Ok! Ok! Eu me rendo! Eu cozinho! - Respondeu depois de muito espernear e não conseguir se livrar das mãos do outro.
- Acho bom. Te amo.
- Também te amo.

Um Homem da Estrada

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

[Agora]
Deitado numa cama, muito, muito longe de casa, você descobre um novo medo: fechar os olhos.

[10 minutos antes]
Há um espelho no qual você observa-se, enquanto escova os dentes, perguntando-se quando foi que surgiu essa nova ruga? Quando foi que você envelheceu 5, 10, 15, 24 anos? Quando foi que o tempo passou? O que foi que você andou fazendo enquanto isso? O que você viveu? O que você perdeu? Talvez a culpa seja da estrada, talvez aqueles 100, 120 km/h realmente tenham te levado pro futuro. Ou talvez você apenas tenha dormido esse tempo todo.

[3 horas antes]
Já é noite. Chove. O que começou como uma simples garoa agora são grossas gotas de chuva. A estrada agora é mais perigosa. A atenção, redobrada. Os faróis são a única fonte de luz. Dirigir de noite é como estar dentro de um túnel. Você não sabe o que há na frente, só pode esperar sair mais uma vez para a luz do dia. É quase sufocante, quase claustrofóbico. Mas uma parte de ti, a parte que lembra da luz do dia, sabe que hora ou outra, o túnel acaba. Tem de acabbar.

[8 horas antes]
O tempo passa diferente na estrada. O pé no acelerador, controlado, certeiro, o velocímetro oscilando entre 100 e 120 km/h. Dizem que para viajar ao futuro, basta correr muito rápido. É claro que, segundo a física, seria preciso viajar a velocidades próximas a da luz. Bem, no momento você precisa se contentar em ficar entre 100 e 120 km/h mesmo, e esperar que ao sair do carro esteja mesmo num futuro. Ou, ao menos, longe o bastante do passado.

[14 horas antes]
Ao fechar as malas você se recorda de todas as vezes que precisou fazer isso de forma não-voluntária. Cada partida indesejada e cada ferida que isso provocava. São tempos passados, é claro. Tudo acabou. Mas continua, não continua? De alguma forma, continua. Um homem da estrada será sempre um homem da estrada, quer queira quer não.

[24 horas antes]
All i want is nothing more...

[31 horas antes]
Um beijo salgado de adeus.

Epitáfio #1

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013


#199.019: Homem; branco; aproximadamente 20 anos; causa da morte: desconhecida.

- E então, o que temos aqui?

- Ahn, um caso bastante interessante, delegado. Veja, veja, aqui, está vendo os olhos? Ah, olhos assim dizem muita coisa. Algumas pessoas nutrem uma certa necessidade de um tipo específico de tristeza, algo como a desilusão. Tem a ver com signos ou algum caralho parecido com isso, me disseram uma vez. É, pessoas que vivem em outro mundo, sabe? Que por si só não conseguem manter os pés no chão. Então, a tristeza vem a calhar, como uma âncora que os impede de flutuar demais. Para eles o mundo é sempre grande demais, vasto demais, cheio demais, perigoso demais, e a maioria não sabe lidar com a magnitude das coisas, sempre se sentindo tão pequenos e impotentes. Aí fica mais fácil assim, ancorados, observando as coisas passarem ao redor, escondendo o rosto daquelas que desagradam. A desilusão, sua âncora, é como uma lembrança de que ele precisava permanecer no chão e não ir embora, voando por aí.  Veja a curvatura dos dedos: ele estava sempre esperando que alguém segurasse sua mão e não o deixasse se perder. Não, delegado, claro que não é coisa de criança, é coisa de pessoa que dá passos grandes demais e que anda sem prestar atenção aonde vai. Não do tipo que não sabe onde vai, mas do tipo que vai pra muitos lugares ao mesmo tempo, e precisa que alguém o guie pra um dos lados, ou simplesmente fica dando voltas ao redor de si mesmo. Sim, sim, como planetas girando no espaço. Também há essas rugas na testa. Um garoto tão jovem e com rugas assim, acho que ele vivia bastante preocupado. Provavelmente não consigo mesmo, não, não, ele tem cara de quem não dava a mínima pra si mesmo, é mais como se todas as coisas erradas do mundo o ferissem. É verdade, o mundo pode ser bastante cruel, mesmo que não seja de propósito. Tenho certeza que ninguém lhe desejava mal, mas as coisas ruins simplesmente o rasgavam de qualquer forma. Sim, há um adulto nele que veio cedo demais, por isso morreu cedo também... é, uma pena.

- Sr. legista, muito interessante essa história toda, mas, afinal, de quê morreu o garoto?

- Ahhh, isso, sim, sim, claro. Bem, ern, eu ainda não sei. Mas veja, é hora do almoço, depois eu continuo com isso e assim que eu souber eu lhe informo. Bom almoço, delegado.


sem titulo

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012


Eu os ouço uivar noite adentro, de dentro, no centro, no peito e na alma, onde corpos não servem de nada, meras manifestações de espíritos abalados. Eu tapei a lua para meus lobos e os guardei no escuro, dentro do espelho, atrás do reflexo, onde ninguém poderia encontrá-los.

Eles uivam para lua nenhuma.

Meus ossos estremecem, reverberando sua fúria e sua fome. Feras que não nasceram para ficar presos dentro desse corpo frágil, quebradiço e enfermo. Meus lobos choram, pedindo a grama sob as patas, o cheiro da mata e da caça, o calor da corrida e da perseguição.

Meus lobos pedem liberdade e eu os amordaço
(em grilhões de ferro, de medo e de loucura)

E o hálito quente que emana da minh boca já não é meu, mas é grito cristalizado, ranger de dentes e arranhar de paredes. Desespero.

ah, meus pobres lobos aprisionados
que sem nada para comer
devoram-me de dentro para fora

Escuridão - 54° dia

quinta-feira, 8 de novembro de 2012



Fazia tanto frio que eu achava que meus ossos podiam se quebrar com os ataques de tremedeira que me assolavam. Comprimia meus membros uns contra os outros na vã esperança de obter algum calor. Pensava em deitar sob o colchão mas o esforço parecia demasiado, então me limitava a me encolher cada vez mais. Na melhor das hipóteses era apenas o inverno. Na pior, meu corpo já estava fraco e debilitado demais. Talvez fosse o fim chegando.

– Eu lhe disse pra levar um casaco antes de sair de casa, não disse?

– Sim, mãe. Você disse – Respondi com voz fraca, depois de juntar um pouco de saliva na boca. 

– Se você tivesse me escutado, não estaria aí morrendo de frio. Mas não se preocupe, quando você voltar pra casa, mamãe vai te preparar uma sopa quente e te colocar debaixo de uma pilha de cobertas.

Eu quase podia me imaginar em casa, embaixo de muitas cobertas e o cheiro da comida que minha mãe me faria. Tudo estaria quente, iluminado e agradável. Eu dormiria aquecido por três dias inteiros só pelo prazer de dormir em uma cama confortável.

– Eu não vou voltar pra casa, mãe. – Me obriguei a dizer, com a tristeza de saber que não estava dizendo para ela, mas para mim mesmo. 

Afinal, minha mãe não estava ali. Nunca estivera. Mas aparentemente, ter consciência disso, não fazia com que ela desaparecesse. Já fazia alguns dias que isso acontecia. Não sabia dizer quantos, já havia parado de contar as garrafas de água. Já não importava. Antes havia a esperança de sair, de que algo acontecesse, de que alguém aparecesse, então eu poderia dizer “estou preso aqui há 23 dias” ou 31, ou 40. Agora não havia mais nada e eu já não sentia vontade de contar. O tempo era uma mera noção distante da qual eu já não precisava.

Não sentia vontade de nada. Passava a maior parte do dia dormindo, às vezes, dormia dois ou três dias inteiros, quando a febre subia. Acordava com a dor da fome, mas sem a mínima vontade de me alimentar. Comia pra acalentar a dor ou para fazer minha mãe calar a boca. 

Às vezes, o esforço era demais e meu estômago não segurava o alimento. Havia um canto do quarto que era uma grande mistura de fezes, urina e vômito. O cheiro, antes insuportável, agora já quase nem era sentido. Meu corpo já não respondia a quase nada. Percorria minhas costelas salientes com dedos fracos e tentava calcular quantos quilos já haveria perdido.

– Logo você vai estar em casa. Estão todos te esperando, eu, seu pai, ele..

– Cale a boca. 

– Mas meu filho...

– Cale a boca! Suma daqui! Eu não vou voltar, eu não vou voltar! Vá embora – Levantei-me com fúria e atirei a garrafa de água contra a parede. A garrafa estourou e água se espalhou por todo lado, me deixando molhado e com ainda mais frio. 

Joguei-me novamente no colchão, exausto. O esforço fora demasiado. As alucinações voltariam. Sempre voltavam. Só esperava que quando voltassem eu já não estivesse mais ali.

(Continua...?)